A premissa para discutirmos diversidade de qualquer tipo é, em primeiro lugar, parar e ouvir o que as pessoas têm a dizer. Afinal, ninguém melhor do que os próprios membros para expressar o que significa pertencer a comunidades que ainda enfrentam preconceito e dificuldades para se encaixar na sociedade. 

Essa lógica se aplica à neurodiversidade, conceito que abrange várias condições de diferenças neurológicas, como TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção), dislexia e dispraxia (distúrbio motor com base neurológica). No sexto episódio da série de diversidade do nosso Podcast recebemos pessoas e profissionais incríveis com TEA. 

Recentemente, gravei um episódio do podcast da Lambda3 sobre este tema, e tive a oportunidade de ouvir as vivências de Luan de Castro e André Valenti, dois devs que descobriram a condição em períodos diferentes de suas trajetórias, bem como a perspectiva de Andreza Lima, mãe do Vinícius, diagnosticado com três anos de idade. Debater o respeito às pessoas do espectro tornou-se ainda mais importante diante dos efeitos da pandemia na saúde mental, já que uma das características do TEA é a maior propensão a desenvolver ansiedade e depressão, e no desenvolvimento das crianças. 

Espectro

A nomenclatura Transtorno do Espectro Autista passou a ser utilizada para designar o autismo em 2013, visando desconstruir estereótipos normalmente associados à condição. O espectro tem sim fatores comportamentais e manifestações mais comuns, porém a incidência varia em maior ou menor grau nos portadores.

Uma das maiores queixas em relação a rótulos, expostas pelos participantes do podcast que mencionei anteriormente, é como são mal interpretados em situações sociais, o que gera sofrimento psicológico e cansaço mental. E isso desde a infância, quando sofrem bullying, exclusão e dificilmente conseguem manter muitos colegas, ou relações sociais/afetivas mais próximas. “Muitas pessoas autistas, por exemplo, são recebidas como insensíveis ou não empáticas, enquanto apenas possuem uma maneira diferente de demonstrar afeto”, contou Luan.

Os participantes também relataram sua relação com a família, que consideram um ponto chave para o processo de autoaceitação e para passar pelo crescimento com menos conflitos. Do ponto de vista materno, há um processo de luto, de autoquestionamento e confronto ao julgamento alheio “É difícil entender que a condição do autista não precisa ser justificada. Quanto mais os pais se reciclarem, mais o cuidado é facilitado”, afirma Andreza. 

Trabalho

A importância da inclusão de pessoas do espectro autista na sociedade é ainda mais relevante quando falamos de vida profissional. Segundo o IBGE, 85% das pessoas com TEA brasileiros estão desempregados, cenário que urge por mudanças. Normalmente, a alegação de empregadores para não contratar é o fator de imprevisibilidade que esses profissionais apresentam, conceito que

a) não vale para todas as pessoas do espectro; e

b) é minimizado com esforços de conscientização de toda a equipe. 

Inclusive, da perspectiva dos participantes de nosso bate-papo da Lambda3, o ambiente de trabalho chega a transmitir mais segurança e conforto a pessoas autistas que outros tipos de situação social. “O trabalho é mais controlado e previsível. E no fim das contas as pessoas entendem a sua condição e passam a te ajudar”, relata Luan. 

Diagnóstico e diálogo

O preconceito contra pessoas neurodiversas fica ainda mais injustificado quando constatamos que o TEA não é uma condição tão incomum assim. São 70 milhões de pessoas com autismo no mundo, segundo a ONU, e 2 milhões estão no Brasil. Assim, podemos conviver com autista e nem saber. 

No fim das contas, segundo André Valente, “o autismo não é um bicho-de-sete-cabeças”. Ele e os outros convidados reforçam o quão libertador é receber o diagnóstico. “Não é um mero papel. É a confirmação de que os comportamentos pelos quais você sempre sofreu e se questionou têm um motivo. E a partir daí, pode buscar ajuda, tratamento e os seus direitos”, 

Assim, se você se identifica ou conhece alguém que apresente comportamentos associados ao TEA – hiper foco, hipersensibilidade sensorial, desejo de mesmice, dificuldade para lidar com ironia ou sarcasmo, entre outros – procure informação e oriente seu colega ou familiar a buscar ajuda. É a partir da informação e do diálogo que se muda um contexto. 

Autoria: Patrícia Kost
Revisão: Sabrina Ribeiro

%d blogueiros gostam disto: