image(Se quer ir direto ao argumento, pule os primeiros quatro parágrafos)

A comunidade de desenvolvimento ágil em geral é muito boa em criticar certificações. Eu sinto essa animação principalmente porque há algum tempo tenho ministrado o curso oficial de Professional Scrum Master (PSM) da Scrum.org, que é ligado e usado como preparação para a certificação de mesmo nome da mesma organização, ainda que seja opcional a sua obtenção, que é livre para qualquer pessoa que esteja disposta a pagar o seu custo de cem dólares. O fato de estar tão próximo ao problema me levou a ter discussões muito interessantes sobre o assunto, e noto uma interessante hipocrisia, que aproveito este espaço para ressaltar.

A crítica mais comum é que certificação não atesta competência, ou seja, um certificado PSM não garante que a pessoa que o possui é uma pessoa com conhecimento amplo sobre Scrum, ou seria um Scrum Master competente. Outra crítica comum é que muitas empresas usam a certificação de maneira cega para contratar. As críticas são verdadeiras, e não conheço ninguém sério que trabalhe com certificação que discorde delas.

De fato, certificações não atenstam competência, mas apenas o que se propõe a atestar. Se a certificação exige uma prova, ela atesta que a pessoa tem conhecimento para passar na prova (se não colou ou usou algum outro método menos nobre), mas não atesta competência para aplicar da maneira correta o conhecimento cobrado na prova, e há uma grande distância entre um e outro. Se o certificado é entregue mediante a presença em um curso, com provas ou exercícios que não impedem sua obtenção independentemente do resultado, ele atesta que a pessoa passou por um curso, é um certificado de presença. Para exemplificar: todos os que fazem um curso conosco podem nos solicitar um certificado de participação, e, se a pessoa esteve presente, entregamos o certificado, que atesta somente isso: a pessoa esteve presente. Já o certificado de PSM I atesta que a pessoa tem conhecimentos básicos sobre Scrum. Nenhum dos dois atesta competência para trabalhar com Scrum ou agilidade.

E também é verdade que há empresas que contratam sem considerar o que expliquei acima, como se um certificado em Java, .NET, Scrum, Cisco, ou qualquer outra tecnologia, fosse suficiente para atestar um bom profissional. Não são. Isso é um problema de interpretação e/ou ignorância sobre o que o certificado é e o que ele não é. E a ignorância pode ser involuntária ou pode ser proposital, onde a empresa ignora pra não se dar ao trabalho e contratar de maneira mais eficiente, mas também mais trabalhosa.

imageEntendendo dos problemas dos certificados, vamos levá-los adiante e considerar um tipo de certificado que é mais aceito até mesmo por quem critica os certificados do tipo que mencionei antes, aqueles dados por uma empresa ou instituição como resultado de um estudo ou presença em um curso. Estou falando dos certificados acadêmicos. Observe os argumentos apresentados anteriormente e verá que eles também se sustentam com estes certificados. Eles também são usados por empresas para contratar, muitas vezes de maneira cega, e também não atestam competência. Alguns argumentam que são mais difíceis de obter, mas não é porque uma graduação toma 4 anos da vida de alguém que ela vai passar a prover competência. Aliás, considerando as faculdades que temos no país, ser graduado (ou pós-graduado, mestre, doutor, PhD) não coloca ninguém em mais condições de resolver um problema se comparado com pessoas que não possuem o mesmo certificado. Talvez seja até pior, porque algumas pessoas cansam do assunto e começam a vê-lo sem a paixão que tinham quando entraram na faculdade.

Nesse cenário, aceitar um certificado de graduação ou mestrado, e criticar um certificado de Scrum é no mínimo hipócrita. Se você critica um, deve criticar o outro por necessidade lógica.

Na prática, o que vejo é o seguinte: quem possui um certificado o defende. Se a pessoa é mestre, então o certificado de mestrado é bom, os outros são ruins. Se a pessoa é certificada em Scrum mas não possui graduação acadêmica, a academia é desnecessária e o certificado de Scrum é bom. Cada um defende seus interesses, criam-se preconceitos, e a industria inteira sofre. Lamentável.

Ainda assim, independente da sua opinião, existe um certificado que você, amigo leitor, tenho certeza que aceita: ele se chama CRM, e é usado para indicar que um médico é licenciado para praticar medicina. Você confiaria a vida do seu filho, da sua mãe ou do seu irmão a um cirurgião sem um CRM? Acredito que não, e isso atesta que você confia no certificado. Mas observe, ele não está livre dos problemas que levantei no começo: ele não garante competência (todos já vimos médicos incompetentes com CRM) e as empresas são obrigadas por lei a contratar somente médicos com CRM. Porque então confiamos nele? Estaria eu defendendo a regulamentação da profissão? Adianto que não, a última coisa que precisamos agora é de um conselho regulador. Ainda assim a pergunta pende: porque aceitamos o CRM?

A resposta é simples, os Conselhos Regionais de Medicina são bastante vigilantes com relação aos médicos. Se um médico comete um erro grave ele pode perder o seu CRM, e há processos para garantir isso. Além disso, um médico ruim com CRM fala contra todos os médicos, então um bom médico tem interesse em remover o CRM de um médico incompetente, ou seja, o mercado é regulado pelo Conselho, mas também é autoregulado. Os médicos são os maiores interessados em dar ao CRM um grande peso, para protegerem sua profissão. Já uma regulamentação em TI dificilmente alcançaria o mesmo objetivo, já que um desenvolvedor de software incompetente é algo difícil de comprovar: a profissão é jovem e não há um corpo pacífico de conhecimento definido, e no cas de uma falha absurda, em geral há várias pessoas envolvidas, inclusive a gerência e o cliente, e fica difícil argumentar de quem foi a responsabilidade pelo problema. Por esse e outros motivos um conselho regional de tecnologia é uma péssima ideia, e um certificado vindo de tal conselho não seria um bom certificado como é o CRM.

Para encontrar um paralelo, olhemos também para a exigência do certificado de graduação de jornalismo. Jornalistas o defendem, mas não há nenhuma garantia de que ele ajude a profissão a ser melhor. A defesa vem da tentativa de estabelecimento de uma reserva de mercado, ou seja, é uma das piores motivações possíveis. Sofreríamos do mesmo problema.

Pense nessas coisas antes de bater num certificado, e esteja disposto a bater também nos certificados que você possui. No mínimo, seja coerente. Não é pedir muito, é?